24 de janeiro de 2012

O Dia Em Que Fui Pego Colando

Fim do 3º período. Ufa! Sem sombra de dúvida esse foi o semestre mais difícil até aqui. Cheguei a pensar que ficaria reprovado em algumas disciplinas, mas graças a Deus (e a uma semana inteira sem ver a cara da minha cama) consegui passar em tudo.

Juro que queria ter voltado antes do fim das aulas pra compartilhar um pouco da tensão que envolve a derradeira semana de provas, mas não consegui. Quem faz medicina sabe que, no final do semestre, nos transformamos todos em zumbis, trapos humanos a vagar pelos corredores da faculdade, mas isso é assunto pra outro post.

Zumbis ou estudantes de medicina no fim do período?
Fuçando nos rascunhos do blog, sem saber direito sobre o que escrever, encontrei o esboço de um post em que eu relatava o dia em que fui pego colando. Num primeiro momento pensei em deletá-lo, por achar que não fazia mais sentido depois de tanto tempo, mas depois de lê-lo e relê-lo (sempre quis usar essa expressão =D) cheguei à conclusão de que aquele momento drástico (quem já passou por isso sabe do que estou falando) foi decisivo para o meu sucesso no final do período, quando a reprovação era praticamente certa em pelo menos 3 disciplinas. Eu explico. 

26 de novembro de 2011

A Medicina e Eu


fonte: http://www.hcnet.usp.br/banco_imagens/index.htm
Meu primeiro contato com o maravilhoso mundo da medicina se deu pelas mãos de minha mãe. Eu era pivete ainda quando ela passou no concurso para auxiliar de enfermagem no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, vulgo HC. Nossa vida mudou a partir dali.

Termos como AVC, decúbito dorsal e cefaléia se tornaram comuns em nossa casa e todo dia havia uma história nova, sempre envolvendo o ambiente hospitalar. Mamãe amava o que fazia e falava com gosto sobre os acontecimentos que presenciava nos corredores do “maior hospital da América latina”, como fazia questão de frisar.

Na primeira vez em que botei os pés no prédio dos ambulatórios tive certeza de que aquela era a rotina que eu queria pra mim. Embora já tivesse estado diversas outras vezes em diversos outros hospitais, até então eu nunca tinha vista o “outro lado”. A partir daquele momento passei a enxergar os médicos como super heróis, pessoas que deixam a família em casa pra salvar vidas.

Essa minha visão infantil, fantasiosa até, mudaria com o passar do tempo... Anos depois, ainda que indiretamente, seria minha mãe quem me puxaria de volta para o ambiente hospitalar, fazendo reacender dentro de mim o desejo de seguir carreira médica.

22 de novembro de 2011

O Primeiro Dia


Todo mundo sempre tem uma pergunta na ponta da língua quando digo que sou estudante de medicina. Quando é o pessoal que está concluindo ou concluiu recentemente o ensino médio, então, a pergunta é sempre a mesma: todos querem saber como foi o meu primeiro dia na faculdade. Como essa curiosidade já foi minha também (quando ainda era um vestibulando de medicina), nada melhor do que começar (essa nova fase do blog) falando exatamente desse primeiro momento que, na minha cabeça, mudaria minha vida pra sempre.

Lembro que, na véspera, embora a aula estivesse marcada para as sete e meia da manhã do dia seguinte, por medo de me atrasar coloquei o relógio para despertar às cinco. Não faria diferença se tivesse programado o despertador para as quatro, três ou duas da matina, porque a verdade é que não consegui pregar os olhos ao longo da noite, tamanha a ansiedade que me consumia.

É engraçado como as lembranças daquele dia não obedecem a um padrão linear. Lembro do calor infernal, de sorrisos no elevador, da correria e do barulho ensurdecedor no instante em que adentrei a sala de aula. A impressão de que todo mundo ali já se conhecia fez com que eu me retraísse e instintivamente fosse buscar abrigo em território seguro. Por isso escolhi o fundão, de onde poderia observar tranquilamente aquela movimentação toda sem ser notado.

Para minha surpresa a algazarra não durou muito. O silêncio se fez presente no exato momento em que a professora adentrou a sala de aula. Sem meias palavras ela se apresentou, deu um breve apanhado da disciplina – Biologia Molecular – e, sem dó nem piedade, pôs-se a vomitar conteúdo.

Quem dera fosse assim...
BioMol até que é legal, interessante até, mas requer certa dose de raciocínio e pra um primeiro dia de aula é meio que tratamento de choque. É o tipo de matéria que leva você a se perguntar onde está aquela rotina emocionante dos seriados americanos como ER e Grey’s Anatomy.

A aula já se encaminhava para seus minutos finais quando chegou a informação de que alguém da coordenação do curso se esquecera de avisar a professora que sua aula fora cancelada. A coitada, totalmente inocente na história, ainda fez menção de interromper sua explanação, mas àquela altura do campeonato já não fazia a menor diferença parar ou prosseguir. O primeiro dia de aula dos nossos sonhos já havia se dissipado.

Sinceramente não me lembro se a professora continuou a aula. A partir desse ponto as lembranças se tornam confusas, embaralhadas, mas uma coisa ficou marcada na minha memória: nesse dia, contrariando todas as minhas expectativas, fui embora mais preocupado que feliz. Assim como nos tempos de cursinho. Embora não precisasse mais me preocupar com vestibular, a verdade é que quase nada havia mudado.

20 de novembro de 2011

Doutor Junior

Doutor Junior é uma brincadeira, um apelido que ganhei quando revelei aos amigos mais chegados minha intenção de largar tudo pra fazer medicina. Por "tudo" entenda-se um emprego bom, com um salário bom (para minha pouca idade) e grandes possibilidades de crescimento numa empresa em franca expansão. Legal, né? Não pra mim.

Eu estava prestes a meter as caras no financiamento do meu primeiro carro quando me dei conta de que estava infeliz. Tipo angústia, sabe? Daí fui fazer terapia, procurei ajuda médica, até em pai de santo fui bater. Demorou um pouco pra eu perceber que a possibilidade de levar aquele tipo de vida pro resto da minha vida é que estava me deixando triste.

Somente quando me sentei na frente do psiquiatra, na minha primeira consulta, é que me dei conta de que eu estava do lado errado da mesa. De cara rolou uma empatia e naquele momento eu tive certeza de que era aquilo o que eu queria fazer até o fim dos meus dias.

Joguei tudo pro alto. Não pensei duas vezes. A tristeza foi embora junto com as camisas polo que eu tanto odiava e que era obrigado a usar. O que eu não imaginava é que seria tão difícil. E olha que eu não estou nem falando do curso (quem faz sabe a pedreira que é), tô falando é do vestibular, da concorrência, dessas paradas todas  ainda mais numa cidade como São Paulo.

Eu achava que tinha vencido a luta quando entrei pra faculdade, mas logo percebi que a batalha maior é de quem já está dentro. E é justamente disso que eu quero falar no blog. Seguindo uma linha meio terapia, meio diário de bordo, pretendo narrar as venturas e desventuras de um estudante de medicina até o sonhado diploma de médico. É bom. Mas que ninguém pense que é fácil.


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