22 de novembro de 2011

O Primeiro Dia


Todo mundo sempre tem uma pergunta na ponta da língua quando digo que sou estudante de medicina. Quando é o pessoal que está concluindo ou concluiu recentemente o ensino médio, então, a pergunta é sempre a mesma: todos querem saber como foi o meu primeiro dia na faculdade. Como essa curiosidade já foi minha também (quando ainda era um vestibulando de medicina), nada melhor do que começar (essa nova fase do blog) falando exatamente desse primeiro momento que, na minha cabeça, mudaria minha vida pra sempre.

Lembro que, na véspera, embora a aula estivesse marcada para as sete e meia da manhã do dia seguinte, por medo de me atrasar coloquei o relógio para despertar às cinco. Não faria diferença se tivesse programado o despertador para as quatro, três ou duas da matina, porque a verdade é que não consegui pregar os olhos ao longo da noite, tamanha a ansiedade que me consumia.

É engraçado como as lembranças daquele dia não obedecem a um padrão linear. Lembro do calor infernal, de sorrisos no elevador, da correria e do barulho ensurdecedor no instante em que adentrei a sala de aula. A impressão de que todo mundo ali já se conhecia fez com que eu me retraísse e instintivamente fosse buscar abrigo em território seguro. Por isso escolhi o fundão, de onde poderia observar tranquilamente aquela movimentação toda sem ser notado.

Para minha surpresa a algazarra não durou muito. O silêncio se fez presente no exato momento em que a professora adentrou a sala de aula. Sem meias palavras ela se apresentou, deu um breve apanhado da disciplina – Biologia Molecular – e, sem dó nem piedade, pôs-se a vomitar conteúdo.

Quem dera fosse assim...
BioMol até que é legal, interessante até, mas requer certa dose de raciocínio e pra um primeiro dia de aula é meio que tratamento de choque. É o tipo de matéria que leva você a se perguntar onde está aquela rotina emocionante dos seriados americanos como ER e Grey’s Anatomy.

A aula já se encaminhava para seus minutos finais quando chegou a informação de que alguém da coordenação do curso se esquecera de avisar a professora que sua aula fora cancelada. A coitada, totalmente inocente na história, ainda fez menção de interromper sua explanação, mas àquela altura do campeonato já não fazia a menor diferença parar ou prosseguir. O primeiro dia de aula dos nossos sonhos já havia se dissipado.

Sinceramente não me lembro se a professora continuou a aula. A partir desse ponto as lembranças se tornam confusas, embaralhadas, mas uma coisa ficou marcada na minha memória: nesse dia, contrariando todas as minhas expectativas, fui embora mais preocupado que feliz. Assim como nos tempos de cursinho. Embora não precisasse mais me preocupar com vestibular, a verdade é que quase nada havia mudado.

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